Vivendo e aprendendo, não é mesmo? Caetano Veloso nunca me despertou muita simpatia, como aquele ar eternamente blasé dele. Mas não é que eu descubro que nem só de "ou não" vive o homem?
Explico. No seu show "Obra em Progresso" Caetano lançou a música "Base de Guantanamo", que diz, singelamente:
O fato dos americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano,
é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar.
A Base de Guantánamo
A Base da Baía de Guantánamo
A Base de Guantánamo
Guantánamo
Numa entrevista, Caetano explicou que a prisão de Guantánamo, onde os americanos mantém presos terroristas da al-Qaeda, lhe causava mal estar porque os EUA são defensores de sociedades abertas, e que se ele fosse "um tipo de pessoa de esquerda, pró-Cuba, anti-Estados Unidos, não sentiria decepção alguma pelo que ocorreu nas prisões de Guantánamo".
Ah, pra que! O Coma-andante Fidel Castro, que quer de volta o monopólio absoluto de violações de direitos humanos em Cuba, disse: "Em duas palavras: o músico brasileiro pediu perdão ao império por criticar as atrocidades cometidas naquela base naval em território ocupado de Cuba”.
Caetano devolveu numa resposta certeira e caceteira:
“Não pedi perdão a ninguém. Procuro pensar por conta própria. Minha irreverência diante dos poderes estabelecidos é impenitente. Dois dias depois de dar a entrevista citada por Fidel, eu disse à televisão austríaca que a tendência sociológica de considerar o racismo no Brasil pior do que o apartheid na África do Sul é uma manobra da CIA (aqui ele tinha que dar a Caetanice dele, mas exigir 100% de perfeição é demais, né?). Sou um artista. Minhas palavras são: criação e liberdade. Se não me submeto ao poderio norte-americano, tampouco aceito ordens de ditadores. Fidel nos deve explicações a respeito de sua identificação com os estados policiais que o comunismo gerou. Hoje toda a esquerda silencia sobre a Coréia do Norte, como silenciava sobre a União Soviética na minha juventude. A canção “Base de Guantánamo” não seria composta se eu não tivesse a evidência de que nos Estados Unidos há respeito aos direitos dos cidadãos como não se vê em Cuba. A decisão da Suprema Corte americana, reconhecendo o direito a habeas corpus aos prisioneiros de Guantánamo é expressão disso. Tampouco seria possível a canção sem o valor simbólico que a revolução cubana tem em nossas mentes. Lembro de ter sentido, quando excursionava com Fina Estampa, que a tragédia de Cuba (com liberdades cerceadas na ilha e uma população inimiga do regime atuando em Miami) era mais vital do que a segurança dessangrada de Porto Rico. Tenho idéias e reações emocionais complexas. Não aceito pacotes fechados. O texto de Fidel é autocongratulatório, prolixo e injusto. Sobretudo com Yoani Sánchez, a cubana que mantém o blog “Generación Y” . Ela e seu marido Ricardo Escobar deram a resposta que eu gostaria de dar a Fidel. Ainda volto ao assunto.”
Fiquem agora com a música:
sábado, 21 de junho de 2008
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