quinta-feira, 1 de maio de 2008

Hoje tem baianada? Tem sim senhor!

Sabem que às vezes dá uma preguiça ser baiano? É por que aqui é a terra onde qualquer absurdo encontra seu precedente. Exemplo prático disso foram as declarações do Coordenador do Curso de Medicina da UFBA de que o referido curso conseguiu o último lugar no ENADE graças ao baixo Q.I. dos baianos.

Até aí nada de mais. Quem não gostou poderia ter simplesmente dito que o referido professor - que é baiano - ao atribuir aos baianos tout court a pecha de portadores de baixo QI estaria simplesmente projetando sua realidade íntima sobre os demais.

Ah, mas não. Aí não seria a Bahia-iá-iá. O mundo veio abaixo. Instaurou-se no nosso estado uma competição acirrada para ver quem consegue falar mais besteira em defesa da Bahia e, assim, superar o professor.

Tom Zé, por exemplo, afirmou que "Nenhuma população de nenhum canto do Brasil pode ser avaliado como (tendo) baixo QI.". Como é que Tom Zé afirma isso? Ele sabe que todas as populações têm alto QI? Ou acha politicamente incorreto afirmar em sentido contrário? E eu que pensei que se qualquer indivíduo pode ter seu Q.I. avaliado, a média dos indivíduos de um grupo pode servir de espelho do grupo. Não é esta possibilidade - a de a média refletir o grupo - aliás, um dos pilares teóricos dos defensores das cotas?

Ah, mas o nosso cantor - referência em filosofia desde que foi citado num voto no Supremo Tribunal Federal, ainda complementou: "O que acontece é que em alguns momentos alguns grupos são particularamente influencidados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos." Como dizem os praticantes de alechat no orkut: Misplica?

Ah, ainda tivemos o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues. Ele comparou o professor a Hitler. Disse que vai processar o professor por racismo e exige retratação & demissão. Logo após dar a sua contribuição à turba de intelectuais, militantes e políticos com ancinhos e tochas, qualificou a frase do professor de "anti-democrática", vejam só como são as coisas....

Mas parem o mundo, pois o Ministério Público entrou na parada. Ééééée, o MP/BA, aquele de onde saiu um promotou que impetrou um Habeas Corpus em favor de um chimpanzé. O brioso representante do Parquet, procurador Vladimir Aras, além de ter enxergado crime de racismo nas declarações do professor (céus, cadê os elementos do tipo - prática, indução, incitamento - em levantar a hipótese de que pode haver nexo entre notas baixas e o QI?), vê possibilidades de ações por improbidade administrativa (cuma?) , danos morais (difusos? mas o sujeito também não é baiano?) além de um processo administrativo.

Ah, mas não poderiam faltar as autoridades. O Exmo. Sr. Governador qualificou de "imbecilidade ímpar" as palavras do professor. E asseverou que ligou para o Reitor da UFBA, professor Naomar, e se solidarizou ao afastamento do atabalhoado professor de medicina. Falando no Magnífico, aliás, sua postura também está a par dos demais:

"Fiz um requerimento à cooordenação da Faculdade de Medicina para afastá-lo da função de coordenador do curso e, se for o caso, a própria faculdade deverá abrir um processo administrativo disciplinar para avaliar se o conjunto de declarações infringiu algum regulamento do estatuto do servidor público".

Sacaram? Primeiro afasta o homem. Depois apura.

Este festival de besteiras assolando a Bahia é sintomático. O busílis, aqui, não é um eventual baixo QI dos baianos. Alguém, aliás, já fez esta verificação antes de afirmar ou infirmar a tese? O cerne do problema, aqui, é a proibição de perguntar.

* Não se pode questionar se existe nexo entre as cotas e a queda de qualidade no ensino da UFBA.
* Não se pode questionar se o berimbau tem o mesmo valor que um stradivarius.
* Não se pode questionar se existe um nexo entre a cultura predominante e o desenvolvimento técnico-científico.


Basicamente, o que se quer é calar as opiniões qualificadas por eles - sempre por eles, os militantes, "intelequituais", o Afrikakorps - como reacionárias. O próprio reitor Naomar deu a entender isso (leia aqui, no 7º parágrafo).

Quando na própria Universidade certas perguntas passam a ser proibidas, quando questionamentos são respondidos por meio do linchamento moral, da rotulação, com o apelo a emoções, com movimentos de massa, ao invés de serem simplesmente corretamente refutados, temos aí um sinal claro e inequívoco de que algo de MUITO grave está se instalando com cada vez mais força na Universidade Brasileira.

E nem preciso concordar com as declarações do professor Dantas.

3 comentários:

Anônimo disse...

né por nada não, mas se o ocordenador do curso de medicina da UFBA, que, acredito e espero, deve ter tido lá seu mérito pra chegar a essa cadeira, falou tanta asneira ao jornal (provavelmente) mais lido do país, o que é que tem pessoas inflamadas, movidas pelo calor do momento, falarem suas cacas também?
e, bem, atitudes tomadas em momentos passionais (normalmente) acabam em mais bosta... então, por pelo menos duas semanas, baianos em geral terão forte diarréia e a mídia se encarrega de distribuir o leite de magnésia.
a resposta ao senhor entrevistado poderia ser outra, algo que nos elevasse de algum modo, talvez detectando, corrigindo os problemas e rebatendo as críticas com base em fatos, com opiniões... seria uma via... mas, como eu disse, não é fácil controlar emoções em massa, sobretudo quando se tem leite de "midianésia" saindo pelos olhos e ouvidos. não tem "intelequitual" que segure o intestino com laxante até no cérebro. a bahia é quente, sangue ferve, benhê.

Marcos Alberto de Oliveira disse...

O dito professor foi simplesmente hiperbólico e recorreu a uma tese que, mesmo se verdadeira,não explica o desempenho dos ALUNOS de medicina da Ufba no Enade.

O que, de fato, ele queria sublinhar (e foi infeliz nisso) é que esse mísero desempenho foi uma conseqûencia direta do regime de cotas.

Ora, foi por atacar essa política afirmativa que a ditadura do politicamente correto desabou sobre sua cabeça.

Aí, os defensores das cotas aproveitaram-se da "ofensa à baianidade", já devidamente caracterizada como racismo, para desqualificar o professor, que, depois de uma longa e bem sucedida carreira acadêmica (que, óbvio, tem seus méritos, passou, curiosamente, a falar "besteira".

Toda esse escarcéu nada mais foi do que um AVISO aos eventuais adversários das políticas afirmativas. Terrorismo grosso, destinado a calar de vez as vozes dissonantes.

A opinião do professor sobre a capacidade intelectual do baiano é algo que, segundo os ideólogos do politicamente correto, sequer merece ser levada em conta, porque, do contrário, um exame superficial já mostraria que ela encerra uma contradição performática (se "todos os baianos tem qi baixo e isso determinou o desempenho dos alunos de medicina, então o próprio Dantas, baiano que é, tb. tem qi baixo e, portanto, sua explicação para esse desempenho é, no mínimo, insatisfatória ), do tipo do paradoxo do mentiroso.

Enfim, a gritaria toda em torno de algo em si irrelevante (se os baianos são mesmo "inteligentes", a opinião de Dantas, ou de qualquer outro, não vai alterar isso o mais mínimo que seja)só vem a corroborar a tese de Dantas, agora incluindo o próprio!

edencardim@gmail.com disse...

Concordo que faltam análises mais apropriadas para o ambiente acadêmico, a respeito dos comentários do Sr. Antonio Dantas. Como baiano e graduado em uma universidade estadual baiana, acredito que o "surto de imbecilidade" do coordenador tem, no mínimo, raízes na lástima que é a cultura estudantil baiana. Talvez eu esteja errado em extrapolar a minha experiência como estudante da Universidade Estadual de Santa Cruz para as demais universidades baianas. Mas o que presenciei durante o decorrer da minha graduação é de que os universitários demonstram pouco interesse na formação acadêmica e pouco valorizam os recursos públicos despendidos nessa formação. Vi muitos estudantes se ausentando das aulas para "protestar" contra a falta de livros nas bibliotecas, e poucos estudantes dentro das bibliotecas lendo os livros pelos quais tanto lutaram. E isso é apenas um dos fatos que ocorreram, a título de exemplificar o desinteresse dos discentes pelo conhecimento. A minha opinião é a de que a ignorância da maioria do alunado "respingou" no coordenador do curso de medicina.
Também concordo que o cerne da questão é a proibição de questionar, inclusive a questão do direito de um chimpanzé ao habeas corpus. Saiba que o direito animal é uma questão antiga e tem fundamentação filosófica elaborada por pensadores respeitados, me desculpe por não encontrar referências em português: http://en.wikipedia.org/wiki/Animal_Rights